“Sabôor energético.” É com essa frase emblemática, viral na internet, que inicio este artigo.
Não é incomum, principalmente na cultura fitness, encontrar pessoas com uma latinha de energético na mão, exaltando-a, como se aquilo dissesse algo sobre o indivíduo que a porta. É como se gritasse para todos: “olha como sou performático”.
E é justamente aí que mora o detalhe que me interessa: quase nunca é sobre a bebida.
A latinha como acessório
Repare no gesto, não no gole. A lata raramente aparece sendo bebida. Ela aparece posicionada. Apoiada no banco do supino entre uma série e outra. Encaixada ao lado do celular na foto do espelho. Segurada na mão que não está segurando o halter. Ela não está ali cumprindo função de bebida. Está cumprindo função de legenda.
Porque um energético é uma das poucas coisas que você pode carregar em público e que fala por você sem que você precise dizer nada. Ele anuncia: acordei cedo, dormi pouco, estou no meu terceiro compromisso do dia, e ainda assim estou aqui. É currículo em formato de embalagem.
O que está sendo vendido não é cafeína
Cafeína é barata e está em todo lugar. Uma lata de 250 ml tem, em média, mais ou menos a mesma quantidade de cafeína que uma xícara de café, que custa uma fração do preço e não exige que você a exiba.
Se o objetivo fosse o efeito, o café resolveria. O café, porém, não comunica nada. Café é o que seu tio toma. Café é doméstico, morno, sem logo agressiva, sem lata gelada, sem nome em inglês.
Não é coincidência que a publicidade do setor jamais tenha vendido sabor. Ela vende salto de paraquedas, madrugada varada, corrida de rua, asas. Você não está comprando um estimulante. Está comprando adesão a uma narrativa sobre que tipo de pessoa você é. A cafeína é só o pretexto químico que legitima a compra.
Cansaço virou falha de caráter
Aqui chegamos, acho, ao ponto que realmente importa.
Vivemos num arranjo em que descansar precisa de justificativa. Dormir bem virou algo que a gente confessa meio sem graça. Não fazer nada num domingo pede explicação. O cansaço deixou de ser um sinal legítimo do corpo (uma informação) e virou um defeito a ser corrigido, de preferência rápido e de preferência comprando alguma coisa.
E o energético resolve esse impasse com uma elegância quase perversa: ele é, ao mesmo tempo, a confissão de que você está exausto e a negação de que isso seja um problema.
Tomar um energético é uma forma de estar cansado de um jeito socialmente aceitável.
Cansado porque produz demais, não porque algo na sua vida não está funcionando. O esgotamento, assim, deixa de ser sintoma e vira troféu.
O paradoxo da performance
Existe uma ironia que raramente é dita em voz alta: quanto mais alguém precisa sinalizar energia, menos energia costuma ter.
Ninguém genuinamente descansado sente necessidade de anunciar disposição. Quem dorme bem não faz disso conteúdo. A performance de vitalidade é, quase sempre, executada por pessoas em déficit: pessoas que precisam que a imagem sustente aquilo que o corpo já não sustenta.
A lata na mão não é prova de que a energia existe. É prova de que ela está em falta, e de que se decidiu comprá-la em vez de recuperá-la.
O que a cafeína realmente faz
Vale dizer o óbvio que costuma ser ignorado: cafeína não cria energia. Ela não te dá nada.
O que ela faz é bloquear a ação da adenosina, a substância que se acumula ao longo do dia e vai avisando ao cérebro que já passou da hora de parar. A cafeína não remove a adenosina, apenas impede que o recado chegue. Ela continua ali, acumulando, em silêncio.
Ou seja: você não pagou a dívida. Você silenciou a cobrança. E, quando o efeito passa, a conta chega inteira e com juros, frequentemente na hora de dormir, comprometendo o sono, o que garante que amanhã você vai precisar de outra lata. O ciclo se fecha sozinho, e a indústria não precisa fazer esforço nenhum para mantê-lo girando.
Some a isso o açúcar de boa parte dos rótulos e o hábito de tomar em jejum, antes do treino, e você tem um combo que faz muito menos pelo seu desempenho do que faria uma semana dormindo sete horas por noite.
Isso aqui não é um sermão
Não escrevi nada disso para dizer que você não deve tomar energético. Tomar um antes do treino não vai arruinar sua vida, e há usos pontuais perfeitamente razoáveis.
O convite é outro, e é mais desconfortável: observar o que exatamente você está compensando.
Se a lata é ocasional, ótimo. Se ela virou condição de funcionamento (se sem ela o dia não começa, o treino não rende, o expediente não passa), então deixou de ser estimulante e virou muleta. E muleta não é problema; o problema é confundir muleta com força.
A pergunta que fica, então, não é se o energético funciona.
É por que precisamos tanto que ele funcione.
E talvez a resposta esteja menos dentro da lata e mais na vida que exige que a gente ande com uma.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você se reconheceu no que leu, conversar com um psicólogo pode ajudar a compreender o que está acontecendo. Os atendimentos são realizados de forma online.
